Em janeiro de 2026, RuneScape entra em uma das maiores viradas de sua história recente: o fim definitivo do Treasure Hunter e da maior parte das microtransações ligadas à progressão. A mudança não é apenas um ajuste de monetização; é um reposicionamento de filosofia de game design em um dos MMOs mais antigos em atividade.
O que está acontecendo com o Treasure Hunter?
A Jagex confirmou que o Treasure Hunter será removido para sempre de RuneScape em 19 de janeiro de 2026. Esse sistema funcionava como o principal mecanismo de loot boxes do jogo, permitindo que jogadores usassem chaves para abrir baús com recompensas que iam de XP direto a itens de progressão.
O Treasure Hunter foi introduzido em 2014, sucedendo o antigo Squeal of Fortune (lançado em 2012). Desde então, se tornou o pilar das microtransações de RuneScape, com:
- Distribuição de algumas chaves diárias gratuitas
- Venda de chaves adicionais com dinheiro real
- Recompensas que afetavam diretamente a velocidade de progressão
Durante anos, isso alimentou críticas de “pay‑to‑win” ou, no mínimo, de “pay‑to‑progress”, já que jogadores dispostos a gastar dinheiro podiam acelerar o ganho de níveis e acumular recursos em ritmo muito superior ao do jogador puramente free‑to‑play ou assinante tradicional.
Cronograma da remoção: o que muda em janeiro de 2026
A Jagex não está desligando o sistema de uma vez só; existe um calendário de transição bem definido para janeiro de 2026:
| Data | O que acontece |
|---|---|
| 12 de janeiro de 2026 |
|
| 19 de janeiro de 2026 |
|
Após essa data, não haverá mais nenhuma forma de adquirir XP direto via loot boxes. A loja do jogo continuará existindo, mas com foco muito mais restrito em:
- Microtransações cosméticas
- Alguns formatos de bônus de XP – mas em quantidade limitada, com teto claro e dependentes de gameplay
Remoção de 225 itens de XP e skilling: fim do pay‑to‑progress
O movimento não é apenas desligar a interface do Treasure Hunter; ele vem acompanhado da remoção de aproximadamente 220 a 225 itens ligados diretamente à progressão. Isso representa um corte profundo em todo o ecossistema de “atalhos pagos” para evolução.
Entre os itens citados pela Jagex estão:
- XP Lamps (lâmpadas de experiência)
- Proteans
- Portables
- Dummies
- Outros consumíveis que fornecem XP ou facilitam skilling de forma artificial
Segundo a própria Jagex, a meta é eliminar fontes compráveis de XP direto e itens que “atrapalham o gameplay central e a economia do jogo”. Na prática, isso significa:
- Acabar com itens que pulam etapas naturais de progressão
- Reduzir o desequilíbrio entre quem gasta dinheiro real e quem progride apenas jogando
- Diminuir impactos artificiais na economia de itens e recursos do jogo
O resultado é um retorno ao foco no grind e na curva de evolução tradicional, característica que sempre foi valorizada pelos fãs mais antigos e que continua sendo um dos grandes apelos de Old School RuneScape.
O voto “mais importante da história do jogo”
Um dos pontos mais simbólicos dessa mudança é como ela foi decidida. A Jagex descreveu essa consulta como “o voto mais importante da história do jogo”. A votação comunitária foi lançada em 29 de outubro de 2025 com uma proposta bem direta:
- Havia apenas uma opção: remover o Treasure Hunter e as microtransações de progressão associadas
- Para ser validada, a votação precisava alcançar 100.000 votos
- O resultado superou a meta, atingindo algo em torno de 120.000–124.000 votos
Ou seja, a comunidade não estava escolhendo entre manter ou não o sistema, mas sim confirmando se queria dar esse passo radical. O fato de o threshold ter sido não apenas alcançado, mas superado com folga, mostra um apoio maciço à remoção.
Em fóruns de discussão de MMO, como r/runescape e r/MMORPG, o clima predominante foi o de vitória comunitária após anos de insatisfação com monetização agressiva. Muitos jogadores interpretam o movimento como um alinhamento maior com os valores vistos em Old School RuneScape, cuja reputação é muito ligada à integridade de gameplay e resistência a monetizações invasivas.
“Integridade” acima da receita: a nova postura da Jagex
O posicionamento oficial da empresa também deixa claro que isso não é apenas uma manobra de relações públicas. O CEO Jon Bellamy (Mod North) foi direto ao afirmar que o modelo de microtransações, especialmente o Treasure Hunter, “erodiu lentamente a integridade” do jogo ao longo dos anos.
A mensagem central é: a Jagex está disposta a aceitar quedas de receita de curto prazo para priorizar:
- Integridade de longo prazo do jogo
- Sensação de justiça entre jogadores
- Valor real entregue na experiência de jogo, não apenas em pacotes pagos
Essa postura é relevante não só para RuneScape, mas para toda a indústria de games. Em um cenário em que muitos títulos dobram a aposta em monetização agressiva, um MMO consolidado abrir mão de sua principal fonte de loot boxes é um movimento raro e observado de perto por jogadores e por outros estúdios.
Integrity Roadmap: o que vem depois do fim das loot boxes
A remoção do Treasure Hunter não acontece isoladamente. A Jagex está amarrando essa mudança a um “Integrity Roadmap” de um ano, que começa em 2026 e será detalhado em um evento especial.
Evento “RuneScape Ahead” em 19 de janeiro de 2026
No mesmo dia em que o Treasure Hunter é desligado (19 de janeiro de 2026), a empresa fará uma transmissão/evento chamado “RuneScape Ahead”. Nele, a Jagex promete apresentar:
- O roadmap de integridade para o ano
- O plano de conteúdo de 2026
A ideia é mostrar que a remoção das loot boxes não é o fim de algo, mas o começo de uma nova fase de reconstrução estrutural do jogo.
Principais focos do Integrity Roadmap
De forma geral, a Jagex já apontou alguns pilares que pretende atacar ao longo de 2026:
- Interface – tornar menus, janelas e sistemas mais intuitivos e menos confusos, especialmente para novos jogadores
- Visual – modernizar a aparência, efeitos e clareza visual sem perder a identidade de RuneScape
- Balanceamento de skilling e combate – revisar a progressão de habilidades e sistemas de combate para torná-los mais coerentes e menos dependentes de atalhos artificiais
- “Dailyscape” – reduzir a sensação de obrigação diária excessiva, comum em MMOs com muitas atividades temporizadas
- Early e mid game – melhorar a experiência de quem está começando ou está no meio da jornada, evitando buracos de conteúdo ou curvas de dificuldade desbalanceadas
- Identidade visual e limpeza de mundo – simplificar, organizar e “desentulhar” áreas do jogo que foram recebendo conteúdo acumulado ao longo dos anos
O foco em integridade indica uma tentativa clara de reconstruir confiança com a base de jogadores. Ao retirar sistemas que aceleram a progressão via carteira, a Jagex também precisa garantir que a jornada “padrão” seja satisfatória, lógica e envolvente. Esse é exatamente o tipo de problema que o Integrity Roadmap pretende atacar.
Impacto prático para os jogadores de RuneScape
1. Para quem usava Treasure Hunter ativamente
Jogadores que dependiam de Treasure Hunter e itens de XP para acelerar skills vão sentir uma mudança imediata:
- Não haverá mais como comprar chaves para obter XP instantâneo ou itens de skilling facilitados
- O ritmo de progressão vai se aproximar da curva “natural” de gameplay
- Estratégias de “maximizar ganhos via eventos de loot box” deixam de existir
Isso pode ser percebido como uma perda de conveniência por quem se acostumou a usar o sistema. Por outro lado, traz uma sensação mais forte de que níveis altos voltam a representar esforço efetivo dentro do jogo, e não apenas capacidade de investimento financeiro.
2. Para quem sempre rejeitou o sistema
Para parte da comunidade que criticava loot boxes e pay‑to‑progress, o sentimento é de alívio e validação. Alguns efeitos esperados:
- Resgate da motivação para evoluir skills pela via tradicional
- Percepção de mais justiça competitiva em atividades que envolvem comparação de progresso
- Redução da sensação de “estar em desvantagem” por não gastar dinheiro
Além disso, a mensagem pública de que a empresa prioriza integridade em vez de receita reforça a confiança de longo prazo, algo vital para um MMO com tantos anos de história.
3. Impacto na economia in‑game
Mesmo sem dados numéricos detalhados, algumas tendências são razoáveis dentro do que foi anunciado:
- A remoção de itens como Proteans, Portables, Dummies e afins tende a diminuir a oferta artificial de XP
- Com menos atalhos de skilling, materiais e recursos ligados a essas skills podem ganhar novo valor no mercado interno
- Jogadores que dominam rotas eficientes de treino “legítimo” podem se destacar mais
Como a Jagex mesma reconhece que certos itens “atrapalhavam o gameplay central e a economia”, a expectativa é que, com o tempo, o mercado in‑game se torne mais orgânico e menos distorcido por recompensas compráveis.
Por que essa mudança importa para toda a indústria de games
O caso de RuneScape é emblemático por alguns motivos:
- É um MMO antigo e consolidado, que poderia simplesmente continuar explorando monetizações agressivas sem grande risco imediato de colapso
- As loot boxes estavam presentes há mais de uma década na estrutura do jogo, primeiro com o Squeal of Fortune e depois com o Treasure Hunter
- A indústria em geral ainda explora microtransações de progressão, mesmo em meio a discussões regulatórias e críticas de jogadores
Ao desligar completamente um sistema central de loot boxes baseado em XP e itens de progressão, a Jagex envia um recado: é possível redesenhar modelos de monetização mesmo após anos de dependência financeira deles.
Isso não significa o fim das microtransações em RuneScape – a própria empresa já indicou que cosméticos e alguns bônus limitados de XP vão continuar. Mas o recuo em relação ao pay‑to‑progress coloca o jogo em um patamar mais próximo de modelos vistos como “justos” pela comunidade hardcore de MMOs.
Como os jogadores podem se preparar para a transição
Com a confirmação das datas, quem ainda joga RuneScape hoje pode se organizar para essa virada de sistema. Algumas atitudes práticas:
1. Usar ou planejar o uso das chaves existentes antes de 19 de janeiro
- Após 19 de janeiro de 2026, chaves remanescentes deixam de existir
- Se você ainda possui chaves acumuladas, é importante decidir se vai usá‑las antes do desligamento
- Não haverá mais como gerar novas chaves a partir de 12 de janeiro, então esse é o limite para qualquer estratégia envolvendo Treasure Hunter
2. Revisar metas de progresso de skills
- Se suas metas de curto prazo dependiam de XP Lamps, Proteans ou consumíveis similares, é hora de recalcular o tempo de grind
- Planejar rotas eficientes de treino “puro” se torna ainda mais importante
- Jogadores focados em maxing podem querer ajustar cronogramas antes e depois de janeiro de 2026
3. Acompanhar o evento “RuneScape Ahead”
- O Integrity Roadmap vai definir como o jogo será reequilibrado após o fim das loot boxes
- Alterações em interface, dailies, early game e balanceamento podem afetar profundamente a experiência diária
- Participar da discussão comunitária ajuda a manter o foco da Jagex nas prioridades mais pedidas pelos jogadores
Um marco na relação entre RuneScape e sua comunidade
O fim do Treasure Hunter em 19 de janeiro de 2026 simboliza mais do que a remoção de um sistema controverso. É um reposicionamento de confiança entre desenvolvedora e comunidade, algo raro em um mercado onde decisões de monetização costumam ser vistas como unilaterais.
A votação com threshold alto, o compromisso público de aceitar queda de receita em nome da integridade e o anúncio de um ano inteiro de foco em problemas estruturais mostram um esforço para reconstruir RuneScape como um MMO mais justo, coerente e duradouro.
Se esse movimento vai inspirar outras empresas a reverem seus próprios sistemas de loot boxes é algo que ainda será observado nos próximos anos. Mas, para os jogadores de RuneScape, 2026 já está marcado como o ano em que o jogo deixou o pay‑to‑progress para trás e retomou o foco na jornada de gameplay.
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